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“No dia seguinte, reuniram-se em Jerusalém as autoridades, os anciãos e os escribas com o sumo sacerdote Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote.” (Atos 4:5,6).

Bom dia!

Em 1961, quinze anos após o término da Segunda Grande Guerra, a filósofa judia Hannah Arendt foi enviada pela revista The New Yorker à Jerusalém para acompanhar e relatar o julgamento de Adolf Eichmann. Acusado da prática de genocídio e de crimes contra a humanidade, Eichmann se declarou inocente de todas as acusações e disse que estava, simplesmente, cumprindo seu dever.

Ao analisar Eichmann, Hannah Arendt concluiu que ele não possuía comportamento antissemita, nem apresentava sinais de doença mental. Ao contrário, era uma pessoa extremamente comum que acreditava no cumprimento de seu dever e o fazia com o maior zelo. A filósofa chocou o mundo e principalmente o povo judeu, ao concluir que pessoas simples são capazes de cometer as maiores atrocidades de maneira banal, crendo estarem fazendo o bem.

Eichmann afirmou para todos que estava apenas cumprindo, da maneira mais efetiva possível, o seu dever e, portanto, não se considerava culpado. É estonteante pensar que pessoas comuns são capazes de realizar atos de extrema crueldade, sem qualquer constrangimento moral, sentimento de culpa ou remorso, e pensar que estão, simplesmente, cumprindo o seu dever.

Será que Hannah Arendt está correta ao afirmar a banalidade do mal? Ao dizer que homens comuns podem praticar atrocidades e pensar que estão simplesmente a cumprir, burocraticamente, seu dever?

Após crucificarem Jesus, as autoridades judaicas que compunham o Sinédrio, suprema corte judaica, se reuniram para examinar e julgar Pedro e João, após estes terem, em nome de Jesus, curado o coxo e anunciado que Jesus estava vivo.

Para iniciar o processo de julgamento, os membros do Sinédrio apresentaram aos apóstolos a seguinte questão: “Com que poder ou em nome de quem fizestes isto?” (Atos 4:7).

Aqueles que condenaram Jesus e o entregaram às autoridades romanas para ser julgado e crucificado, não se mostraram afetados em suas consciências, nem demonstraram arrependimento.

Como o Salmista nos explica no capítulo quarenta e dois do livro dos Salmos, “um abismo chama o outro abismo” (Salmo 42:7). Por isso, as autoridades judaicas, tendo a oportunidade do arrependimento, se aprofundaram ainda mais no erro, com a convicção de que estavam a agir corretamente.

Quando estávamos no início de nosso treinamento na Academia Militar, nossos instrutores sempre repetiam o axioma: “Ordem ilegal não se cumpre!”. É bom examinarmos os fundamentos de nossas escolhas. Convém discernir os aspectos éticos e morais de nossos atos. É legítimo desobedecer a uma ordem ilegal e injusta.

É imprescindível reconhecer que há uma grande Lei Moral que é a Lei Suprema. O professor, teólogo e apologista C. S. Lewis (1898 – 1963) também a chama de Lei do Certo e do Errado ou Lei Natural, porque todos a conhecem por natureza e não precisam ser ensinados a respeito de sua existência ou aplicação: “Há duas coisas estranhas sobre a raça humana. Primeiro, que eles são perseguidos pela ideia de que há um tipo de comportamento que devem adotar que poderíamos chamar de justiça, ou decência, ou moralidade, ou Lei Natural. Segundo, que, na verdade, eles não agem de acordo com ela.”

Naquele dia, quando se reuniram em Jerusalém as autoridades, os anciãos e os escribas com o sumo sacerdote Anás, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem do sumo sacerdote, para inquirir Pedro e João a respeito de um bem que eles haviam feito ao homem coxo, certamente, em seu íntimo eles, de antemão, se sentiram reprovados e sabiam que estavam a violar a Lei Moral.

Diferentemente de Hannah Arendt, C. S. Lewis, em concordância com as Sagradas Escrituras, advoga a existência da Lei Moral inscrita no coração de cada ser humano. Muitas vezes, em obediência à Lei Moral, é preciso ter a coragem de desobedecer às leis injustas e fugir de ajuntamentos feitos para quebrá-la. Às vezes, é melhor sofrer o dano.

REFERÊNCIA

C. S. LEWIS. Cristianismo Puro e Simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. Edição do Kindle.

Cel. Cícero Nunes

Cel. Cícero Nunes

Professor Estudo Bíblico

Cícero Nunes Moreira é casado com Cibele Mattiello da Rocha Moreira. Ordenado ao ministério sacerdotal há vinte e cinco anos, autor e Pastor na Igreja Evangélica Vida com com Cristo e capelão voluntário na Policia Militar de Minas Gerais com atuação, principalmente na Academia de Policia Militar e no Hospital da Policia Militar. Mestre em Ciências da Religião pela PUC Minas e Coronel do Quadro de Oficiais da Reserva. Autor do Livro Religião e Direitos Humanos na Policia Militar e Segue-me! Conectando-se ao Evangelho de Lucas.

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